Imóvel no exterior: comprar é só o primeiro sistema jurídico

Um imóvel no exterior é regido, em grande parte, pelas regras do país onde está situado. Para residente fiscal no Brasil, a aquisição, os rendimentos e uma futura venda também podem gerar obrigações brasileiras. A sucessão pode exigir procedimento local, documentos apostilados e coordenação com o inventário brasileiro.

A escritura prova que o imóvel é seu naquele país. Ela não decide, sozinha, como o aluguel será tributado no Brasil nem como os herdeiros conseguirão transferi-lo depois.

Por Guilherme Oshima, Sócio-fundador · Vice-Presidente da Comissão de Direito Digital e Proteção de Dados da OAB/PR

Comprar imóvel no exterior combina pelo menos três sistemas: direito local sobre propriedade, regras brasileiras do titular e movimentação internacional do dinheiro. A escritura estrangeira resolve a aquisição naquele país; não resolve sozinha declaração, tributação ou sucessão para um residente brasileiro.

Antes da compra, identifique quem será o proprietário formal. Pessoa física, empresa ou estrutura fiduciária podem produzir consequências diferentes de custo, controle e sucessão. A opção não deve ser feita apenas porque um corretor local diz que “estrangeiros usam assim”.

O país do imóvel controla questões que o Brasil não controla

Registro, condomínio, imposto local, restrições a estrangeiros, locação e procedimento sucessório dependem da jurisdição do bem conforme a jurisdição do bem. A LINDB também usa a lei do local do bem para qualificar e reger relações relativas a bens no direito internacional privado brasileiro, ao mesmo tempo em que contém regra própria para sucessão.

As quatro camadas do imóvel no exterior Camadas: Propriedade local; Câmbio; Tributação; Sucessão. Propriedade localescritura, registro e regras do paísCâmbioorigem e envio dos recursosTributaçãorenda, ganho e declaraçõesSucessãoprocedimento e transferência aos herdeiros
O mesmo imóvel participa de sistemas diferentes; nenhum deles deve ser planejado isoladamente.

Por isso, compra e sucessão precisam ser planejadas juntas. Se o proprietário falecer, pode haver procedimento no país do imóvel ainda que exista inventário ou testamento no Brasil.

O dinheiro da compra precisa ter trilha

A Lei nº 14.286/2021 rege o mercado de câmbio e capitais internacionais. Contrato, remessa, fechamento de câmbio e comprovantes de aquisição precisam permitir reconstruir o custo do bem e a origem dos recursos.

Essa trilha será usada na declaração brasileira e pode ser essencial para futura venda. Reformas, benfeitorias e despesas de aquisição só devem aumentar o custo fiscal quando a legislação permitir sua incorporação e houver documentação capaz de comprovar o gasto. Guardar contratos, notas, comprovantes de pagamento e registros cambiais desde a aquisição evita tentar reconstruir o custo anos depois.

Uso, aluguel e venda são fases tributárias diferentes

Imóvel sem renda, imóvel locado e imóvel vendido não têm o mesmo tratamento. A residência fiscal do titular, eventual imposto pago no exterior e acordo tributário aplicável podem mudar a análise. A página de ganho de capital trata da alienação; declaração de IR trata da manutenção declaratória.

A sucessão não deve depender de a família descobrir o ativo

Guarde matrícula ou registro equivalente, contrato, identificação fiscal local, instituição responsável por tributos, seguro, administrador e contato profissional. Se existir testamento local ou estrutura societária, registre onde está e como se relaciona com eventual testamento internacional.

O ativo internacional deixa de ser “um apartamento fora” e passa a ser parte do patrimônio familiar somente quando compra, renda, sucessão e documentação estão coordenadas.

Financiamento, copropriedade e aquisição por entidade estrangeira adicionam novas camadas. Um imóvel comprado por casal, por exemplo, pode ter efeitos diferentes conforme regime de bens e regras locais; quando adquirido por uma companhia, o ativo brasileiro declarado pode ser a participação societária, não o imóvel diretamente. Essa escolha interfere também na sucessão transnacional.

Perguntas frequentes

O imóvel deve aparecer no imposto de renda brasileiro?

Para residente obrigado a declarar, o bem deve ser informado segundo as regras vigentes e os dados de aquisição.

O inventário brasileiro transfere automaticamente o imóvel estrangeiro?

Em regra, não. O país onde o imóvel está pode exigir procedimento e registro próprios.